Romaria da Terra e das Águas 2019: Pastoral do Meio Ambiente (PMA) anima com místico o Plenarinho do Rio São Francisco e outras Bacias, em memória às vítimas de Mariana e Brumadinho

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BRUMADINHO PERGUNTA: QUEM MANDA NA BACIA DO RIO SÃO FRANCISCO?

A comissão organizadora da 42ª Romaria da Terra e das Águas, que neste ano de 2019 teve como lema “Terra, água e justiça: direitos sagrados!”, por meio da CPT convidou a Pastoral do Meio Ambiente (PMA), da Diocese de Bom Jesus da Lapa, para preparar a mística do “Plenarinho do Rio São Francisco e outras Bacias”.

Em razão do crime ambiental ocorrido em Brumadinho/MG, em 25 de janeiro de 2019, foi trazida a plenário a questão “Brumadinho pergunta: quem manda na Bacia do Rio São Francisco?”. Aí inspirada a mística reafirmou a indignação dos presentes perante aquela brutal injustiça e a convicção de que “Somos todos atingidos” e que “Ninguém solta a mão de ninguém”.

Os agentes da PMA prepararam o ambiente orante trazendo, num pano azul, a representação de um rio São Francisco e seus afluentes saudáveis – em cada afluente, uma vela acesa e um ramo verde simbolizavam a presença da vida. Ao som da canção “Correnteza”, cantada por Djavan, os presentes foram convidados a depositar, sobre o tecido azul, os símbolos de suas vidas que portavam naquele momento: chapéus, cesto de temperos agroecológicos, anéis de tucum, flores, terços, calçados, lenços, chapéus, caneta, bandeiras… A música foi interrompida por um barulho ensurdecedor, à semelhança do que seria o do rompimento da barragem na tragédia-crime que interrompeu vidas. Agentes da PMA cobriram o azul vivo do rio e seus símbolos de vida com um longo pano marrom escuro, que apagou as velas e os sufocou. No pano as logomarcas da Vale, Samarco e BHP, dos Governos de Minas Gerais e Federal, e os nomes de empresas que devastam os Gerais Baianos, como a Igarashi, a Sudotex, o condomínio de fazendas Estrondo. Silêncio geral.

 

 

 

 

 

 

 

Disse uma das participantes na avaliação do plenarinho: “A Igreja se calou para ouvir o clamor…”. Do meio da assembleia, foram citados os nomes dos 19 mortos em Bento Rodrigues, Mariana-MG, na tragédia-crime da Vale e consorciadas, em 05 de novembro de 2015, que ainda carecem de justiça. Ouviram-se também os estarrecedores números das vítimas em Brumadinho, que já somam 247 mortos, 156 órfãos e 23 desaparecidos.

Na sequência, a assembleia silente ficou atenta à narrativa de dona Maria Aparecida, em depoimento gravado no dia seguinte ao rompimento em Brumadinho. Ela está entre as vítimas que conseguiram escapar do mar de lama e denuncia: “… o alarme lá, a sirene, não tocou hora nenhuma!”. Após o choro, diz: “Eu vi o inferno aqui na terra, hoje.”. E a mística de abertura foi concluída com a música “Nada Vale”, composta por Alexandre Gonçalves, da CPT Norte de Minas, apelidado Alemão (veja letra em anexo).

Seguindo o plenarinho, Ione Rochael, de Caetité-BA, militante do MAM – Movimento pela Soberania Popular na Mineração, que tem estado em trabalho solidário junto às vítimas em Brumadinho desde que ocorreu a tragédia criminosa, expôs a situação dos empreendimentos minerários em avanço em todo o país, a engolir gente e natureza. Trouxe os casos de Caetité, Pindaí e Guanambi, na Bahia, ameaçados de terem implantada uma barragem de rejeitos pela Bahia Mineração – BAMIN onde vivem mais de 700 famílias e mais de 20 nascentes. “Nós temos o dever de nos unir para barrar esse retrocesso e toda essa lógica destrutiva capitalista que tenta enganar o povo e destruir a vida em troca do lucro”, denunciou Ione.

Fábio Lopes, coordenador da PMA em B.J. Lapa
Samuel Britto, CPT Centro Oeste, assessor do Plenarinho

Outras situações recorrentes na Bahia foram trazidas por participantes: Mirabela no Rio de Contas e Galvani/Iara em Campo Alegre de Lourdes.

De positivo, a retomada da Articulação Popular São Francisco Vivo, compromisso do plenarinho na romaria de 2018. Cibele Figueiredo, de Januária-MG, residente em Brasília, e Marina Rocha, da CPT em Juazeiro, contaram como foi o encontro desta Articulação em Januária

Com base na síntese das discussões feita por Samuel Britto, da CPT Centro Oeste / Núcleo da Lapa, o plenarinho assumiu os seguintes compromissos assumidos pelos participantes: resistir à imposição atual da mineração (extrativismo), impedindo novas barragens de rejeitos minerários, em vista de outro modelo de mineração com soberania popular; exigir das autoridades o reconhecimento de que a lama criminosa da Vale já contamina o São Francisco e as medidas cabíveis de direito da população afetada; avançar na organização e articulação em defesa das Bacias de nossos rios; fortalecer as lutas com fé e unidade das ações, em torno de um projeto popular.

Neste clima de indignação e compromisso, ao som da música “Mágoa de Rio”, cantada pelo violeiro mineiro Rodrigo Delage (veja letra em anexo), os participantes retiraram o pano marrom que simbolizavam a lama da Vale e de todos os demais empreendimentos degradantes e criminosos e rasgaram os papéis com seus nomes.

 

Ao retomarem seus objetos depositados sobre o pano azul do São Francisco vivo, de mãos dadas e numa só voz foi rezado o “Pai Nosso”. Cada qual devia estar agradecido/a e disposto/a a prosseguir mais fortes nesta empreitada em defesa da Vida, que é a mesma empreitada do Bom Jesus.

Por: Ruben Siqueira (CPT Bahia)

Peterson Rodrigues (PMA / Diocese Bom Jesus da Lapa)

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